quarta-feira, agosto 09, 2006

CARTA DE UMA MÃE ALENTEJANA

Mê querido filho
Ponho-te estas poucas linhas para saberes que estou viva.
Escrevo devagar por que sei que não gostas de ler depressa.
Se receberes esta carta, é porque chegou. Se ela não chegar,avisa-me que eu mando-te outra.
Tê pai leu no jornal que a maioria dos acidentes ocorrem a 1 km de casa. Assim, mudámo-nos para mais longe.Sobre o casaco que querias, o tê tio disse que seria muito caro mandar-to pelo correio por causa dos botões de ferro que pesam muito.
Assim arranquei os botões e pu-los no bolso. Quando chegar aí,prega-os de novo.
No outro dia, houve uma explosão na botija de gás aqui na cozinha. O pai e eu fomos atirados pelo ar e saímos fora de casa.Foi a primeira vez em muitos anos que o tê pai e eu saímos juntos.
Sobre o nosso cão, o bobi, anteontem foi atropelado e tiveram de lhe cortar o rabo, por isso toma cuidado quando atravessares a rua. Na semana passada, o médico veio visitar-me e colocou na minha boca um tubo de vidro. Disse para ficar com ele por duas horas sem falar. O teu pai ofereceu-se para comprar o tubo.Tua irmã Maria vai ser mãe, mais ainda não sabemos se é menino ou menina, portanto não sei se vais ser tio ou tia.O teu irmão António deu-me muito trabalho hoje. Fechou o carro e deixou as chaves lá dentro. Tive que ir a casa, buscar a suplente para a abrir. Por sorte, cheguei antes de começar a chuva,pois a capota estava aberta.
Se vires a Dona Justina, diz-lhe que mando lembranças. Se não a vires, não digas nada.

Tua Mãe, Rosalina

PS: Era para te mandar 100 euros que me pediste, mas quando me lembrei já tinha fechado o envelope.

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